Texto: Marcus Minuzzi
Pedro Demo (2004) torna o amor possível, infelizmente, através da crença absoluta na palavra. O problema da palavra radicalmente usada é que somente uma dimensão do ato de aprender se manifesta. Se Foucault (1971) já ensinou que saber é poder, provavelmente não considerou o modo inconsciente pelo qual aquilo que Nietzsche (2008) chamou de “vontade de poder” avança. Nietzsche acabou acusado de fazer apologia à superioridade racial – e de, com isso, favorecer o poder do nazismo. Nietzsche terminou a vida louco.
A força de uma cultura cada vez mais se mede pela sua textura artística. Como pensar no problema da expansão do saber em sala de aula? O onirismo humano, ou seja, nossa infinita capacidade de ressignificação da realidade, traz à tona imagens do paraíso (lugar sem opressão de qualquer espécie).
A música torna o paraíso factível mais do que a palavra. Música e sonho se igualam. A idéia de colocar pés sob um manto musical – a dança, enfim – nos reuniria à chave proveniente de um ribombar. No chão bate-se com os pés, ressoando-se pelo corpo um sentido de pulsação. O corpo, efetivamente, é ao mesmo tempo relógio das batidas (cronômetro) e o primeiro lugar onde o pássaro da música nos passeia, ou seja, é nosso primeiro instrumento musical.
O manto que costuma cobrir nossos alunos em sala de aula é o manto da palavra. “Cuspe e giz”, e, mais recentemente, datashow. A metodologia que aplico procura enternecer o espaço de sala de aula ritmadamente.
Com a ameaça de aquecimento global, a temperatura aumenta também onde o medo mais fecundo se encontra: na divisão de território. A guerra antigamente se dava em torno dessa possessão física. Com a revolução representada pelo mundo digitalizado, as guerras felizmente podem continuar a ser travadas sem o risco de extinção da espécie. O amor universal começa onde a música artisticamente orienta a paz. O professor artista ordena o novo amor: guerrear amistosamente – ou o “convencer sem vencer”, conforme Demo.
Na procura por um horizonte para a prática pedagógica, Demo falha ao desconsiderar o demens existente no humano, ao lado do sapiens. Tornar o humano apenas belo e bondoso é desconhecer que há o erro.
Posso estar dizendo coisas sem comprovação, mas a minha convicção nestes pressupostos reforçou-se quando uma minha aluna relatou que minhas aulas a tinham feito retornar à própria infância através de um sonho.
Na turma em que estuda esta aluna eu havia conseguido aplicar ampliadamente o que chamo de Metodologia da Casa (princípio artístico de concretizar o abstrato no chão do divertido/dionisíaco lugar que pode ser uma sala de aula). A técnica é simples: a casa aliada à infância é evocada através da possibilidade que o aluno tem de riscar no chão da sala de aula com o giz levado pelo professor. A música pode tornar esta ludicidade ainda mais forte. A diferença produzida em relação à maneira “normal” de ensinar é abissal: com o giz na mão e arteiramente esquecido da presença do professor, o eterno estudante domina seu medo de errar.
A força artística desconhece o medo, já que na arte tudo é permitido. A navegação inconsciente revela o mito como espaço longínquo, produtor e reprodutor de todas as formas. O novo nasce daí. O retorno ritualizado à infância artisticamente acende o fogo de um menino, ou menina, que mora dentro de todos.
Rebeca, a aluna a cujo sonho me referi, me fornece uma preciosa indicação do onirismo que a Metodologia da Casa representa. Sua resposta ao estímulo do espaço lúdico das aulas foi ter sonhado com uma brincadeira de sua própria infância, uma espécie de disputa entre equipes, segundo me relatou, onde a habilidade requerida envolve roubar do adversário sua bandeira. No sonho, eu, que, na prática real com os alunos, divido a sala em grupos “rivais”, dando a cada um deles uma cor de giz, dava aos grupos, de modo que identificassem suas “casas”, bandeiras coloridas.
Porque, afinal, o ser humano brinca? Brinca para ativar o ninar inconsciente do medo de entregar-se. O amor de que tanto fala Paulo Freire (1996) como necessário à autonomia no conhecimento arde desconhecido e fatal dentro de cada um. Lentamente apenas é que ele acende, permitindo ao professor tornar-se um mestre de onde resplandece a coragem necessária ao enfrentamento da vida em face do outro.
A distância que nos mantém separados artisticamente apenas é superada. O sonho que mora distante é o de libertação. Logicamente, a menina que sonhou com a brincadeira das bandeiras não queria a aula livre, mas ritualisticamente ordenada, com “cara” de bagunça. O medo que oprime acende o rito amoroso. A brincadeira ritualiza o segredo ocultado totalmente pela forma rotineira do real: entre o amor está o antropológico anseio pela revolução. Guerrear torna-se então apenas a disputa pela artística função de recriar o mundo.
Referências bibliográficas
DEMO, Pedro. Universidade, aprendizagem e avaliação. Porto Alegre: Editora Mediação, 2004.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Petrópolis : Vozes, 1971.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia –saberes necessários à prática educativa. São Paulo : Terra e Paz, 1996.
MINUZZI, Marcus . O retorno do mito - algumas reflexões quanto ao mito de um novo Brasil e o papel da Comunicação. Fragmentos de Cultura (Goiânia), v. 19, p. 175-184, 2009.
NIETZSCHE. Além do bem e do mal. Porto Alegre : L&PM, 2008.
Marcus Minuzzi é Doutor em Ciências da Comunicação,
professor do curso de Comunicação Social da Faculdade Araguaia.
Texto apresentado durante o XIV Seminário Didático-Pedagógico
da Faculdade Araguaia, realizado em janeiro de 2010